Esta semana estamos aprendendo a argumentar. Vimos que argumentar não é apenas dar uma opinião, mas defendê-la, de modo que a pessoa com quem você conversa (o interlocutor) compreenda seu ponto de vista sobre determinado assunto.
O Artigo de Opinião, dessa forma, é um gênero textual (existem muitos outros!) pertencente ao âmbito jornalístico e tem por finalidade a exposição do ponto de vista sobre um determinado assunto. Assim como a dissertação (também conhecida como REDAÇÃO pelos estudantes), ele também se compõe de um título, um parágrafo que introduz o texto, explanando de forma geral o assunto que será discutido; o desenvolvimento, que apresenta os argumentos do autor, sempre tendo em mente que esses deverão ser pautados em bases sólidas, para conferir credibilidade por parte do leitor. E por fim, segue a conclusão do artigo,onde ocorrerá o fechamento das ideias anteriormente discutidas.
A seguir, vamos ler um Artigo de Opinião, escrito por Lya Luft:
BALEIAS NÃO ME EMOCIONAM,
DE LYA LUFT
Hoje quero falar de gente e bichos. De notícias que freqüentemente aparecem sobre baleias encalhadas e pinguins perdidos em alguma praia. Não sei se me aborrece ou me inquieta ver tantas pessoas acorrendo, torcendo, chorando, porque uma baleia morre encalhada. Mas certamente não me emociona. Sei que não vão me achar muito simpática, mas eu não sou sempre simpática. Aliás, se não gosto de grosseria nem de vulgaridade, também desconfio dos eternos bonzinhos, dos politicamente corretos, dos sempre sorridentes ou gentis. Prefiro o olho no olho, a clareza e a sinceridade – desde que não machuque só pelo prazer de magoar ou por ressentimento. Não gosto de ver bicho sofrendo: sempre curti animais, fui criada com eles. Na casa onde nasci e cresci, tive até uma coruja, chamada, sabe Deus por quê, Sebastião. Era branca, enorme, com aqueles olhos que reviravam. Fugiu da gaiola especialmente construída para ela, quase do tamanho de um pequeno quarto, e por muitos dias eu a procurei no topo das árvores, doída de saudade. Na ilha improvável que havia no mínimo lago do jardim que se estendia atrás da casa, viveu a certa altura da minha infância um casal de veadinhos, dos quais um também fugiu. O outro morreu pouco depois. Segundo o jardineiro, morreu de saudade do fujão – minha primeira visão infantil de um amor romeu-e-julieta. Tive uma gata chamada Adelaide, nome da personagem sofredora de uma novela de rádio que fazia suspirar minha avó, e que meu irmão pequeno matou (a gata), nunca entendi como – uma das primeiras tragédias de que tive conhecimento. De modo que animais fazem parte de minha história, com muitas aventuras, divertimento e alguma tristeza. Mas voltemos às baleias encalhadas: pessoas torcem as mãos, chegam máquinas variadas para içar os bichos, aplicam-se lençóis molhados, abrem-se manchetes em jornais e as televisões mostram tudo em horário nobre. O público, presente ou em casa, acompanha como se fosse alguém da família e, quando o fim chega, é lamentado quase com pêsames e oração. Confesso que não consigo me comover da mesma forma: pouca sensibilidade, uma alma de gelos nórdicos, quem sabe? Mesmo os que não me apreciam, não creiam nisso. Não é que eu ache que sofrimento de animal não valha a pena, a solidariedade, o dinheiro. Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois de não haver mais crianças enfiando a cara no vidro de meu carro para pedir trocados, adultos famintos dormindo em bancos de praça, famílias morando embaixo de pontes ou adolescentes morrendo drogados nas calçadas. Tenho certeza de que um mendigo morto na beira da praia causaria menos comoção do que uma baleia. Nenhum Greenpeace defensor de seres humanos se moveria. Nenhuma manchete seria estampada. Uma ambulância talvez levasse horas para chegar, o corpo coberto por um jornal, quem sabe uma vela acesa. Curiosidade, rostos virados, um sentimentozinho de culpa, possivelmente irritação: cadê as autoridades, ninguém toma providência? Diante de um morto humano, ou de um candidato a morto na calçada, a gente se protege com uma armadura. De modo que (perdão) vejo sem entusiasmo as campanhas em favor dos animais – pelo menos enquanto se deletarem tão facilmente homens e mulheres.
(Revista Veja, abril de 2005)
EXERCÍCIO
Copie e cole essas perguntas em COMENTÁRIOS e digite suas respostas. Não se esqueça de colocar seus nomes:
1 - Encontre, no artigo de opinião de Lya Luft, a INTRODUÇÃO, O DESENVOLVIMENTO E A CONCLUSÃO.
2 - Quais foram os argumentos usados pela autora para defender a ideia de que ela não se emociona com baleias?
3 - Você REFUTA, SUSTENTA OU NEGOCIA os argumentos defendidos por Lya Luft neste texto?
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